Ganhador do Prémio Goldman de Meio Ambiente de 2008 para a África

Feliciano dos Santos
Lichinga, Moçambique

Usando a música para difundir a mensagem de saneamento ecológico nas partes mais remotas de Moçambique, Feliciano dos Santos habilita os habitantes das aldeias a participar do desenvolvimento sustentável e deixar a pobreza para trás. Na província do Niassa, muitas aldeias não contam nem mesmo com uma infra-estrutura de saneamento básico. Sem acesso confiável a sistemas de fornecimento de água limpa e tratamento de dejectos, a população está altamente sujeita a enfermidades. Santos, que cresceu na região, é hoje o líder de um programa inovador que está a trazer esperança renovada ao Niassa. Com a sua banda, Massukos, reconhecida internacionalmente, Santos utiliza a música para divulgar a importância da água e do saneamento em Moçambique. Actualmente, o seu programa serve de modelo para outros programas de desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Saneamento e pobreza
Em quase toda a África, a falta de saneamento adequado significa um grande desafio ao desenvolvimento. Quando a água potável está comprometida, o que se segue é quase sempre a enfermidade. A Organização Mundial da Saúde calcula que 80 por cento de todas as doenças no mundo são atribuíveis à ausência de água e condições sanitárias seguras. Doenças transmitidas pela água matam mais crianças com menos de cinco anos do que a SIDA. Reconhecendo os riscos ambientais e sociais associados ao saneamento deficiente, a Organização das Nações Unidas declarou 2008 o Ano Internacional do Saneamento Básico, com o objectivo de atrair mais atenção para o problema a nível mundial.
Em Moçambique, mais da metade da população vive em extrema pobreza, sem acesso a saneamento básico. Localizada no extremo norte, a província do Niassa é uma das regiões mais pobres e isoladas do país, com uma população de um milhão de habitantes, cuja maioria mora em pequenas aldeias espalhadas pela província. Apesar de ser do tamanho da região da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, o Niassa conta com apenas 170 quilómetros de estradas pavimentadas.
Dejectos estimulam o desenvolvimento sustentável
O saneamento ainda é considerado um assunto tabu em todo o mundo, embora continue a ser um dos problemas mais urgentes em regiões extremamente pobres. Santos conseguiu encontrar maneiras de discutir técnicas de eliminação de excrementos humanos com aldeões através de programas comunitários e da música. Ele cresceu no Niassa, sem água potável nem saneamento adequado, e foi vítima da poliomielite, que o deixou com uma deficiência física. Ao atingir a maturidade, passou a concentrar seus esforços na melhoria das condições de vida na região. Santos compreende que as questões relativas ao meio ambiente e à saúde estão correlacionadas em regiões como o Niassa, que enfrentam o problema da pobreza. Enquanto director da associação comunitária ESTAMOS, ele trabalha directamente com os habitantes das aldeias na implementação de projectos de saneamento comunitário, promove a agricultura sustentável, lidera projectos de reflorestamento, e patrocina iniciativas inovadoras de combate ao HIV/SIDA. Santos acredita que os problemas de saneamento e abastecimento de água precisam de ser resolvidos em primeiro lugar, e só então outros projectos de desenvolvimento poderão criar raízes.
Santos e ESTAMOS promovem o "saneamento ecológico", um processo de baixo custo e ecologicamente sustentável que utiliza latrinas geradoras de composto, conhecidas como EcoSans, para transformar dejectos humanos em fertilizante agrícola de alto teor nutritivo. Tipicamente, uma família faz uso de uma latrina EcoSans durante alguns meses, adicionando terra e cinza após cada uso. O buraco então é coberto e deixado a repousar por oito meses, durante os quais a família utiliza outro buraco. Durante estes oito meses, todos os agentes patogénicos nocivos são destruídos, deixando em seu lugar um fertilizante rico que pode então ser escavado e usado nas machambas. O composto, além de ser um fertilizante natural, aumenta a capacidade de retenção de água do solo. As famílias que usam o saneamento ecológico registam marcadamente menos doenças, uma melhoria de 100 por cento na produção agrícola, e um aumento na capacidade de retenção de água do solo. Antes do saneamento ecológico, muitos aldeões utilizavam fertilizantes artificiais nas suas machambas, e frequentemente mal podiam alimentar as suas famílias, devido ao alto custo dos mesmos. Ao utilizar o composto ao invés de fertilizantes artificiais, muitos conseguem produzir mais alimentos do que o necessário para consumo próprio, e podem assim obter uma pequena renda através da venda de suas colheitas.
Santos e ESTAMOS acreditam que sistemas de saneamento ou mudanças comportamentais não devem ser impostos aos aldeões por ONGs externas. Íntimo do local, Santos e sua equipa realizam oficinas participativas nas quais os aldeões podem tomar conhecimento das opções de saneamento disponíveis e, se assim o desejarem, escolher a sua opção favorita e construí-la eles mesmos.
Desde 2000, quando começaram a trabalhar no Niassa, Santos e ESTAMOS já ajudaram milhares de pessoas em centenas de aldeias a ter acesso a água limpa e saneamento ecológico. Esta é uma significante conquista, quando se considera a falta de infra-estrutura nas aldeias remotas do Niassa. ESTAMOS continua a crescer e agora está a trabalhar em três distritos no norte de Moçambique. Numa área remota, um chefe local associado a ESTAMOS está a trabalhar com um grupo de 70 aldeias com o objectivo de estender a cobertura do saneamento a 100 por cento da região. Esta conquista será a primeira de tal magnitude em Moçambique.
Capacitação através da música
Massukos, a banda de Santos, incorpora a mensagem do saneamento à música, realizando apresentações em aldeias em todo o Niassa e, ocasionalmente, em outras partes de Moçambique e também no exterior. Desde que Santos iniciou o seu programa comunitário através da música, pessoas em todo o Niassa e Moçambique começaram a prestar mais atenção aos problemas de saneamento rural do país. Ao incorporar as ricas tradições de espectáculo do Moçambique, Santos e ESTAMOS conseguem estabelecer uma ligação com os habitantes das aldeias de maneira culturalmente apropriada, através da música e do teatro. Quando Santos e a sua banda chegam a uma aldeia no Niassa, toda a população local amiúde aparece para ouvir a sua música e a sua mensagem. A música, porém, não é a única razão do sucesso da ESTAMOS. Em Julho de 2007, Massukos foi à Inglaterra para o lançamento do álbum “Bumping” e apresentou-se no World of Music, Arts and Dance (WOMAD), o festival internacional de renome de música, arte e dança.

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